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A terra também ensina caminhos

Por Serta
13/03/2026 | 09h:02

Entre a infância no sítio, as gerações de agricultores da família e o encontro com a agroecologia, Manu construiu sua trajetória até coordenar o campo do SERTA em Glória do Goitá.

Maria Manoela Mendes dos Santos aprendeu cedo que a terra tem seus próprios tempos. Plantar, esperar, cuidar, colher. Nada acontece de imediato. Talvez por isso, a paciência tenha sido uma das primeiras lições que ela guarda da infância no sítio, em Caruaru, no Agreste pernambucano. Foi ali, entre o quintal de casa, os barreiros que guardavam água e as mãos dos pais trabalhando a terra, que Manu cresceu aprendendo a observar o mundo com calma.

Hoje, aos 27 anos, ela coordena o trabalho de campo do campus do SERTA em Glória do Goitá. Lidera uma equipe de sete trabalhadores e cuida da gestão de uma área de 15 hectares. Mas antes de chegar a essa responsabilidade, houve uma trajetória silenciosa, construída aos poucos, como quem cultiva uma roça.

Manu vem de uma família em que a agricultura atravessa gerações. Bisavós, avós, pais. A terra sempre esteve ali, como parte da vida. Seu pai, Manoel Francisco dos Santos, foi liderança comunitária e presidente de associação; a mãe, Francisca de Fátima, sempre esteve ao lado dele no trabalho da roça. A casa da família também guardava uma cisterna comunitária antiga, construída ainda no tempo dos avós, símbolo de um tempo em que a água era dividida entre vizinhos e o cuidado com a terra era coletivo.

A infância de Manu foi simples e cheia de imaginação. Cresceu quase sempre entre adultos, depois que os primos se mudaram para longe. Brincava debaixo das árvores, montando cozinhas improvisadas com galhos, folhas e frutas do quintal. As bonecas ficavam guardadas. O que ela gostava mesmo era de inventar casas no meio do mato.

Apesar dessa proximidade com a terra, ela não imaginava que seguiria esse caminho. Quando terminou o ensino médio, tentou cursar Administração. Não conseguiu concluir. Naquele momento, a agricultura ainda não parecia ser seu destino. Mas também havia algo que não a deixava sair do sítio.

“Não era o que eu queria, mas alguma coisa não me deixava ir embora”, ela lembra.

Aos poucos, esse vínculo começou a se transformar. Muito por incentivo dos pais, que a chamavam para plantar, cuidar de uma pequena área, acompanhar as atividades da propriedade. Pequenos gestos que, com o tempo, despertaram outra forma de olhar para a roça.

O encontro com o SERTA veio quase por acaso. Manu e os pais participavam da Feira da Agricultura Familiar de Caruaru, na Estação Ferroviária, onde vendiam a produção da propriedade. Foi ali que um conhecido da família falou sobre o curso técnico em agroecologia e incentivou sua inscrição. Na verdade, foram outras pessoas que fizeram a inscrição por ela. Manu apenas aceitou tentar.

Passou no processo seletivo e começou a estudar. Formou-se em 2021, em um período atravessado pela pandemia, quando grande parte das aulas acontecia online. Foi um processo de adaptação, aprendizado e persistência. Antes mesmo de concluir o curso, iniciou estágio no próprio SERTA e, pouco depois, foi convidada para atuar como técnica em projetos.

Trabalhou primeiro em comunidades da Região Metropolitana do Recife, acompanhando experiências de ecotecnologias e agroecologia em territórios urbanos. Depois, seguiu para outro projeto em morros da capital pernambucana. Foram anos de aprendizado em diferentes contextos, convivendo com comunidades e ampliando o olhar sobre o campo e a cidade.

Em 2024, assumiu a coordenação de campo do SERTA em Glória do Goitá.

Hoje, sua rotina é intensa. O trabalho começa cedo, às sete da manhã, acompanhando as atividades da equipe e o manejo da propriedade. No fim da tarde, ela pega o ônibus para a faculdade, onde voltou a cursar Administração. Chega de volta ao campus já à noite, muitas vezes perto das dez e meia. Entre o trabalho, os estudos e as responsabilidades da gestão da área, o descanso precisa caber nos intervalos possíveis.

Mesmo assim, quando volta para casa nos fins de semana, em Caruaru, o trabalho continua. Há sempre algo para fazer na propriedade da família: limpar o terreiro, ajudar nos cuidados da casa, preparar o sistema de captação de água antes da chegada das chuvas. A roça, afinal, nunca para.

Ao falar sobre agroecologia, Manu não começa pelas técnicas ou pelos sistemas produtivos. Para ela, a agroecologia aparece primeiro nas relações.

Ela diz que o campo ensinou algo que leva para a vida: a simplicidade, a humildade e a capacidade de conviver com pessoas diferentes. Crescer em um ambiente pequeno, quase isolado, fez com que descobrir o mundo fosse também aprender a se relacionar com ele.

“Eu acho que o mais forte é isso: o relacionamento. A simplicidade do campo mostra que o simples pode ser o mais bonito.”

Talvez seja essa a travessia silenciosa da história de Manu: a de alguém que nasceu no campo, tentou seguir outros caminhos, mas acabou reencontrando na terra um lugar de permanência.

Hoje, entre planilhas da faculdade, reuniões de equipe e o cuidado com cada pedaço dos 15 hectares do SERTA, ela segue fazendo o que aprendeu desde menina: plantar, cuidar e esperar o tempo certo das coisas.

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