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Eu não nego de onde eu vim

Por Serta
20/03/2026 | 04h:08

Indígena do povo Kambiwá, Fabiana Gomes constrói seu caminho entre a memória de origem, a agroecologia e o trabalho no SERTA.

Há histórias que começam muito antes da gente. Vêm de longe, atravessam gerações e seguem vivas no corpo, na memória e nas escolhas do presente. Com Fabiana Gomes Kambiwá, essa história tem nome, território e pertencimento.

Fabiana tem 34 anos, é técnica em agroecologia pelo SERTA e indígena do povo Kambiwá, localizado entre os municípios de Ibimirim e Inajá, no Sertão de Pernambuco. Mesmo morando hoje na cidade, é na comunidade que suas raízes permanecem firmes.

“Eu nasci e me criei dentro do povo”, ela diz, com a certeza de quem sabe exatamente de onde vem.

Sua infância foi vivida na aldeia, entre a casa da mãe e o cuidado da avó, com quem morou durante anos. Foi ali que aprendeu a participar dos rituais, a reconhecer o valor da coletividade e a entender que viver em comunidade é também partilhar responsabilidades, afetos e modos de existir.

Lembra desse tempo como um tempo bom. Não porque fosse fácil, não era. Mas porque havia vida.

Brincava no quintal, ajudava nas tarefas de casa e crescia entre as exigências e os ensinamentos de uma realidade que, muitas vezes, pedia mais responsabilidade do que infância.

“A gente era feliz e não sabia”, diz, rindo das lembranças.

A escola, dentro da comunidade, também fazia parte desse cotidiano. Com poucos recursos, sem estrutura adequada, muitas vezes estudando com o que havia disponível. Fabiana lembra de usar pedaços de papelão como apoio para aprender a escrever. Ainda assim, foi ali que começou a construir sua formação.

“Passei dificuldade, passei necessidade… mas isso não é vergonhoso”, afirma.

A cultura do povo Kambiwá sempre esteve presente em sua vida. Os rituais, como o toré, a agricultura, a relação com a terra e a valorização da ancestralidade fazem parte de um modo de viver que resiste ao tempo. Um modo de vida em que plantar não é só produzir, mas continuar um legado.

Na comunidade, cada família tem seu pedaço de terra, onde cultiva feijão, milho, macaxeira, jerimum. A agricultura segue o ritmo da natureza, depende da chuva, do preparo do solo, da paciência.

É assim que as coisas acontecem.

Foi também nesse contexto que Fabiana começou a construir sua autonomia. Ainda jovem, saiu da comunidade para trabalhar como doméstica na cidade. Foi seu primeiro contato com outros mundos, outras realidades, outras formas de viver.

Com o tempo, vieram novas oportunidades. Estudou, fez formações, concluiu o ensino médio e, mais tarde, conheceu o SERTA por meio de uma liderança da própria comunidade.

“Eu nem conhecia o SERTA, tão perto e a gente não conhecia”, lembra.

Ingressou no curso técnico em agroecologia em 2016 e se formou em 2017. Entre um grupo de pessoas da comunidade que também iniciou o curso, foi a única que permaneceu na instituição. Em 2018, passou a integrar a equipe de colaboradores, onde segue até hoje.

O caminho até aqui não foi linear. Foi feito de deslocamentos, aprendizados e reconstruções.

Fabiana conta que, quando chegou ao SERTA, era uma pessoa mais dura, mais fechada. Hoje, ao olhar para trás, entende que aquela postura também era uma forma de defesa.

“Talvez tenha sido meu jeito de me proteger”, reflete.

Com o tempo, as experiências vividas no trabalho, nas formações e na convivência com outras pessoas foram transformando esse modo de se relacionar com o mundo. Não apagando quem ela era, mas ampliando.

“Tudo é construção, tudo é processo, tudo é formação”, diz.

Hoje, além de técnica em agroecologia, Fabiana é mãe de duas meninas: uma adolescente de 14 anos e uma bebê de poucos meses. Entre o trabalho, a maternidade e a vida na cidade, sua rotina é intensa, feita de cuidados, escolhas e responsabilidades.

Ao mesmo tempo, Fabiana mantém vivo o vínculo com sua origem. Faz questão de que as filhas conheçam e participem da cultura do povo Kambiwá, entendam de onde vêm e reconheçam seu lugar no mundo.

“É importante que elas saibam quem são, de que povo vêm”, diz.

Porque, para ela, pertencimento não é algo que se deixa para trás. É algo que se carrega.

Entre a comunidade, o trabalho no SERTA e a vida na cidade, Fabiana constrói seus caminhos sem romper com suas raízes. Segue afirmando, no cotidiano, que é possível transitar entre mundos sem deixar de ser quem se é.

E, assim como na agricultura que aprendeu desde pequena, sua trajetória também é feita de continuidade.

De cuidar do que veio antes, enquanto planta o que ainda está por vir.

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