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Uma vida inteira de cuidado

Por Serta
05/03/2026 | 10h:31

Lene começou a trabalhar aos 12 anos e, como tantas mulheres, dedicou sua vida ao cuidado da casa, da família e das pessoas ao redor.

O que chega primeiro é sua voz forte e ligeira, vinda de uma personalidade geniosa e franca. Maria de Edilena Gomes da Silva, 45 anos, há 15 anos no SERTA, é uma das pessoas que não leva desaforo para casa. Ai de quem pisar no chão que ela acabou de limpar. Sua agilidade em formar frases de advertência, impacientes, dá uma energia de vida real aos corredores da instituição.

Quando conversamos com Lene, como é carinhosamente chamada, entendemos de onde vem seu temperamento singular. Aos 12 anos de idade, Lene teve seu primeiro trabalho na casa da família de Dona Suzana, como empregada doméstica. Uma criança responsável por cuidar e limpar a residência de uma família que morava em uma vila da zona rural de Timbaúba, sua cidade natal. Sua residência, com seu pai, madrasta e 14 irmãos, também era na zona rural, mas em um sítio bem mais afastado.

Nessa primeira casa em que foi levada para trabalhar pelo pai, a maneira como era tratada pela dona da casa a fez fugir e ir em direção à própria casa. Andou por entre os matos, em caminhos pouco conhecidos, até entrar na casa simples da família e anunciar: “Eu fugi, voltei para casa.”

Ela assume que sua pouca experiência de vida e a dificuldade de se comunicar a fizeram fugir:
“Eu tinha 12 anos. Eu tinha vergonha de pedir pra ela pra sair. Com vergonha. Aí não sabia o que fazer. Eu planejei e saí dessa casa fugida.”

Para poder estar nesse trabalho, saiu da escola e não concluiu os estudos. Dona Suzana foi sua primeira patroa, mas não a última. Depois disso, ainda na adolescência, cuidou de uma idosa e, em seguida, foi cuidar de uma tia adoentada no município de Aliança, até chegar à cidade do Recife, para trabalhar na casa de outra família.

Essa família do Recife tinha ligações com Glória do Goitá, para onde se mudaram, e Lene foi junto. Foi então que conheceu o pai de sua primeira filha. Engravidou muito nova. O medo de contar em casa era grande, mas podia contar com o apoio das irmãs. Quando foi colocada para fora pela madrasta, as irmãs se uniram para impedir que isso acontecesse.

Essa gravidez indesejada e precoce a levou a tomar a decisão de interromper a gestação, mas não deu certo:
“Eu passei por muita coisa na vida já. Eu tomei remédio pra interromper. Não deu certo. Vomitei o remédio todo. Graças a Deus não deu certo.”

Trabalhar a vida toda em afazeres domésticos intermináveis deixou sua saúde física prejudicada. Hoje, a artrose e a tendinite nas pernas fazem com que conviva com dores diárias. Quando encerra o expediente no SERTA, a segunda jornada começa em casa, com sua primeira netinha. Filha da terceira das quatro filhas que tem, a neta Maria Valentina, grande xodó da vovó, faz dois anos este ano.

As dores nas pernas são o gravame nessa rotina de cuidado. A neta requer disposição e energia. Lene requer cuidado e descanso.

Uma vida dedicada ao cuidado da casa de outras pessoas, da saúde e da vida de outras pessoas. Cuidado em deixar a instituição limpa, organizada e cheia de vida, só pela sua presença notável.

Uma mulher que não teve uma infância como todas as crianças deveriam ter. O que lhe foi dado foi o ofício do cuidado. Ofício que emaranhou sua vida, sua saúde e seus sonhos.

“Quando eu era criança sonhava muito. Sonhava ser professora, sonhava tanta coisa… e não sou nada.”

Edilene é muita coisa: mulher forte, determinada, que ama suas filhas e netas. Mulher que, como tantas outras, deixava suas filhas em casa para cuidar dos filhos de outras mulheres. Mulher que teve seus sonhos roubados pela necessidade de colocar dinheiro em casa. Mulher que, desde os seis anos de idade, não teve sua mãe por perto, mas que, apesar dos desentendimentos, contou com sua madrasta e suas irmãs.

Uma rede de mulheres marcadas pelo destino e pelas faltas.

Mas, com certeza, Lene tem suas sobras, tudo o que transborda.
Sobra autenticidade, afeto, conversas aceleradas, amor pelas filhas e netas e sonhos.

Sonho de se aposentar, morar no sítio e aproveitar a vida. A vida que sempre foi dedicada ao cuidado.

Agora, a hora é do seu próprio cuidado.

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